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Este não é um post pessimista

Que estranha quimera é o homem, ele é uma novidade, um caos, um tema de contradições, um prodígio, é juiz de todas as coisas e imbecil, verme da terra e depositário do verdadeiro, cloaca de incertezas e erros, glória e vergonha do universo. Somos belos e horrendos, inteligentes e imbecis, juizes e réus, ordenados e caóticos. PASCAL Senso de incompletude. Liberdade embalada em plástico, reluzente e com gosto de isopor. A felicidade é sublime e, com comicidade, vendida como algo tangível. Os itens citados, que mais se aproximam de um apático quadro clínico, remetem à constipação do homem contemporâneo. São esses espectros de imediatismo, de individualismo e de passividade que desenham o mal estar atual. A busca pela verdade norteia o comportamento coletivo: o diferente deve ser massacrado, esta é a ética ensinada ao indivíduo. A intolerância vai eliminar os pretensos inferiores, e aí você ganhará a verdade irrefutável que tanto deseja ter. Tudo em nome da cura deste vazio, um burac...

A América de mal humor

Frente à postura iraniana de não abrir suas fronteiras para análise do urânio que o país vem desenvolvendo — seja para fins armamentistas ou para produção de eletricidade —, os Estados Unidos têm se constipado, num mal estar que reverbera por todo o Ocidente. A especulação de que o Teerã esteja enriquecendo urânio com fins armamentistas é o argumento central de Washington para buscar aliados, inclusive em terras tupiniquins, intencionando que o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) crie sansões freando os interesses de Mahmoud Ahmadinehad, presidente iraniano. O Brasil, que nos últimos anos estabeleceu relações positivas com o Irã, e que também desenvolve análises semelhante de enriquecimento de urânio — contudo a portas abertas para inspeção internacional, desde que seja mantido o sigilo tecnológico do processo —, defende o direito iraniano de desenvolver o programa, respeitando, contudo, o TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear). Neste cenário arisco, há aind...

Outros olhares da moda

A figura que vem a mente toda vez que a palavra Moda é pronunciada já sofreu vários tipos de deturpação. Além do que se imagina, hoje a fisionomia da Moda está nos cortes de cabelo, nos objetos, nos corpos, nas gírias, na forma de tentar (re)construir o mundo em que vivemos através da imagem. O simples fato de ver a ligação restrita da Moda com as vestimentas já é entendimento ultrapassado sobre o assunto. Portanto, engana-se aquele que vê na graduação de Moda um desfile de dondocas se acotovelando com blush no rosto e cabelos espalhafatosos. A moda é, antes de mais nada, retrato da sociedade, uma forma de comunicar e expressar — que marca e representa parte da história de um povo em determinada época. À frente dos estereótipos, o estudante que pretende ingressar nesse campo deve ter em mente a necessidade de expansão de seu repertório cultural — já que o curso tem grande discussão de disciplinas humanas. A faculdade de Moda fala também da criação, da pesquisa e do desenvolvimento d...

Questões Domésticas

Vivi por deliciosos anos numa casa simples, minúscula, mas aconchegante, cuja proprietária era, e ainda é, uma pessoa que eu intitulava “de Deus”. Meio piada interna o nome, mas é possível entender. Crente fervorosa, ela tinha lá seus chiliques religiosos. Externava, como se as palavras não coubessem à boca, todos os seus infortúnios e insucessos a Ele. E a mim cabia um só lugar: não acabar com a esperança religiosa, seja lá de quem fosse, nem questionar os caminhos à qual perpassaram essa esperança. Uma postura repressora frente à fé alheia nunca é justa. Assumo ser quase preconceito questionar a fé, achar-se melhor que alguém a ponto de delinear modelo de vida embasado em minha opinião quase religiosa. E assim evito, ainda hoje, suscitar assuntos permeados por fanatismo juntos aos fanáticos. A paixão impede de olhar a si — e isto vale pra mim. De qualquer jeito não importa, não é problema meu. Sempre questionei o quê aconteceria a uma pessoa se não atendesse a um chamado da noite, a...

Crises e cicatrizes

Jogava qualquer coisa que tem um nome, que mistura liberdade e prisão, em meio ao caos que eu mesmo desenhara. Parecia que as cartas tinham facilidade para serem selecionadas no jogo; estas que, em certos momentos, eram simulacros que não as tornara escolhas. No jogo é possível escolher. Tudo vinha tão fácil às mãos como se o destino do próximo movimento não representasse um futuro que era preciso arquitetar. Tinha medo de verdade de alguns movimentos. Eles estavam, pois, aqui guardados. Como na música eram as vozes que eu ouço à noite. Não sabia como lidar com eles. Flexionei as possibilidades com um racionalismo que chegava a envergonhar. E não conseguia me reter. Aquilo era pergunta em cima de pergunta, o que não permitia criar linha alguma com nome de resposta. O cantor começou a dizer algo de “ouça um bom conselho, que lhe dou de graça, inútil dormir que a dor não passa”. Eu sabia que teria de me queimar. Mas sei também que ainda não posso responder a isso. Pelo menos por enquanto...

Pôr fogo em tudo

Dissimulada --> Estava disposto ao necessário, de filho da puta em diante. À merda aquela história de que as coisas seriam feitas depois. Nada poderia perdurar. Pouco me importa a opinião dos outros. Quando me prendi a isso foi só para me perder, me tornar risível, enganar a mim mesmo e favorecer pessoas que me queriam me ver, às claras, pelas costas. Escolhi ser. Livre ao menos ali. Nada de “olá”, “tudo bem?” ou aquela meia dúzia de lugares comum. Ora ou outra temos de olhar à frente. Correto e sensato. É isso que o mundo diz para fazer. Balela. Não é o quê sou, segundo o manual “normas da moral e dos bons costumes”. Nem tentei ser nesse dia. Essas talvez sejam as duas piores mentiras inventadas pela humanidade: ser correto e sensato. Tudo é incorreto e insensato. Para frear as pessoas, evitar que elas explodam – o que é sempre mais gostoso – existem algumas regrinhas melosas permeando nossas cabeças. Tenho ciência disso, mas, ainda assim, minha história fora desenhada a ...

Vestidos rosa, ditaduras consentidas e a possível luz no fim do túnel

O caso aqui na verdade é outro. Cabe, primeiramente, uma observação. É errônea a utilização da palavra ditadura como colocarei aqui; mas, ainda assim, o farei como forma de metáfora para retratar a imposição de algo. Não deveria chamar de ditadura, vez que não falamos de política, mas, contudo, é impossível não traçar paralelo com algo totalitário quando pensamos no incidente com a aluna hostilizada numa universidade paulista meses atrás. O ocorrido foi trágico. Já o vestido — à exceção da cor que não me agrada — nem tanto. Fato é que a parte funesta aqui se confirma em muitos pontos. Tragédia por conta do alvoroço porque, quando se hostiliza alguém por conta de suas vestimentas, confirma-se, no mínimo, aquela máxima — triste, machista, mas bem brasileira — de que, em muitos estupros, é a vítima e suas roupas que levam o infrator a cometer tamanho delito; como se a individualidade humana pudesse ser desrespeitada por conta de uma questão estética. Foi ainda mais trágico em termos educa...