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Crises e cicatrizes

Jogava qualquer coisa que tem um nome, que mistura liberdade e prisão, em meio ao caos que eu mesmo desenhara. Parecia que as cartas tinham facilidade para serem selecionadas no jogo; estas que, em certos momentos, eram simulacros que não as tornara escolhas. No jogo é possível escolher. Tudo vinha tão fácil às mãos como se o destino do próximo movimento não representasse um futuro que era preciso arquitetar. Tinha medo de verdade de alguns movimentos. Eles estavam, pois, aqui guardados. Como na música eram as vozes que eu ouço à noite. Não sabia como lidar com eles. Flexionei as possibilidades com um racionalismo que chegava a envergonhar. E não conseguia me reter. Aquilo era pergunta em cima de pergunta, o que não permitia criar linha alguma com nome de resposta. O cantor começou a dizer algo de “ouça um bom conselho, que lhe dou de graça, inútil dormir que a dor não passa”. Eu sabia que teria de me queimar. Mas sei também que ainda não posso responder a isso. Pelo menos por enquanto. E agora fica assim, um vazio que não é só meu, mas que preciso esvaziar. E a realidade tornar-se-á um mito que limita o infinito. Contudo, esta é uma carta.

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