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Vestidos rosa, ditaduras consentidas e a possível luz no fim do túnel

O caso aqui na verdade é outro. Cabe, primeiramente, uma observação. É errônea a utilização da palavra ditadura como colocarei aqui; mas, ainda assim, o farei como forma de metáfora para retratar a imposição de algo. Não deveria chamar de ditadura, vez que não falamos de política, mas, contudo, é impossível não traçar paralelo com algo totalitário quando pensamos no incidente com a aluna hostilizada numa universidade paulista meses atrás.
O ocorrido foi trágico. Já o vestido — à exceção da cor que não me agrada — nem tanto. Fato é que a parte funesta aqui se confirma em muitos pontos. Tragédia por conta do alvoroço porque, quando se hostiliza alguém por conta de suas vestimentas, confirma-se, no mínimo, aquela máxima — triste, machista, mas bem brasileira — de que, em muitos estupros, é a vítima e suas roupas que levam o infrator a cometer tamanho delito; como se a individualidade humana pudesse ser desrespeitada por conta de uma questão estética.
Foi ainda mais trágico em termos educacionais porque, numa universidade, local onde pretensamente o conhecimento é difundido, local onde se formam cidadãos para um pseudo-futuro, o que se viu foi a maior prova de que nem dentro da “jaula” é possível respeitar o outro. E aqui vale a alusão de que a jaula nada mais é do que a própria sala de aula, onde se aprende o “ficar quieto”, o “obedecer”, o “fazer o melhor para se obter um amanhã” — a jaula da fábrica, do hospício, da família e da sala de aula, tão bem pontuadas por Foucault.
Claro, não sejamos poliânicos: a tragédia maior se consolida no que, talvez, tenha causado tanto clamor; porque, certamente, não foi só o vestido. Para ganhar vaia coletiva — que, vale lembrar, reverberou por toda imprensa e, segundo os especializados na espetacularização da miséria alheia, pode render até uma cadeira ao lado dessas gurias que levantam algum ao mostrar o corpo — a garota fez mais do que usar um vestido curto. Mulheres aos montes desfilam com vestidos menores e mais indiscretos por toda a cidade e, nem por isso, conseguem tantos holofotes.

Estética e arte

Bom, o objetivo central. O que pretendemos tratar aqui, por fim, é a relação estética suscitada com o caso. Esta — que vale comentar mesmo sem estarmos tratando de artes propriamente — existe ao falarmos de um julgamento visual em relação a uma pessoa; que, por usar determinada vestimenta, foi rechaçada. E isto arrasta o fato muito mais longe, chegando ao ponto estético. A questão traz à tona uma discussão sobre o quê está posto, o quê é regra, o quê é facilmente aceito em meio à massa frente às relações estéticas.
Eis o porquê da escolha do termo ditadura. De forma nua, o que se viu, por parte dos estudantes da Uniban, foi a tentativa de eliminar as atitudes pretensamente transgressoras da estudante, que não estavam em conformidade com o “razoável” nem com o Establishment. Aqui, a ditadura figura ao lado da moda e, por conseguinte, cai no campo estético. É curioso pensar que, neste caso, a repressão imposta não veio de uma parte representativa do Estado — por isso afirmei, no início deste, que seria até errôneo utilizar a palavra ditadura — ou coisa assim; mas sim dos próprios ‘colegas’.
O fato ocorrido com a estudante é o que pretendo chamar de ditadura consentida. Digo consentida pois, a força do Establishment se consolidou de tal forma, o próprio indivíduo da massa policia as atitudes do outro, assegurando a manutenção do que está posto. Em certa medida é uma aceitação quase que pluralista de que nada pode ou deve ser feito — as pessoas são assim e pronto. Embasado em situações como esta, vale a reflexão sobre quais são as formas possíveis de se modificar o que parece petrificado no imaginário social.
Aqui tomo de empréstimo algumas idéias de Herbert Marcuse, no que tange a impossibilidade de ação, para articular sobre. Ele, romanticamente como assume, diz existir nas artes a parcela de possibilidades para pensar um novo comportamento frente às imposições da cultura de massa. As idéias do pensador podem ser inseridas nesse contexto quando se vislumbra a quebra de paradigmas coletivos.
Marcuse se respalda na arte para apontar possíveis modificações sociais por um viés interessante. Para ele, a arte é o utópico, o impensável, é ela que pode “descobrir e (re)criar uma nova imediação, que emerge apenas com a destruição do velho”.
Notadamente você se perguntará: “E o quê a arte tem a ver com o preconceito das pessoas? O quê isto tem a ver com a atitude de jovens embasados em comportamentos estereotipados que, ao notar um hiato, rechaçam tudo que não seja razoável, socialmente aceito?”. O pensador alemão dirá que é a estética e a percepção da arte que podem libertar as faculdades sensíveis do ser humano e, com isso, levá-lo a questionar, num momento de êxtase proporcionado pelo belo, tudo o que está posto pelo Establishment. Pode soar utópica a visão, mas o fato é que a própria idéia de mudança já foi enquadrada pelo sistema e, assim, vende-se a sensação única de que não há o que fazer. É um niilismo coletivo, que vai contra a premissa de Marcuse. Ele vê luz no fim do túnel.
Longe de ser messiânico, vale a pergunta feita pelo filósofo: “Não terá chegado o momento de unir a dimensão estética e política, de preparar o terreno, no pensamento e na ação, para fazer da sociedade uma obra de arte?”. Sem a resposta, vale dizer que as pequenas ações que parecem irrefutáveis podem ser revisadas. Como disse Drummond, “O sol consola os doentes e não os renova. / As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas em ênfase”.

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