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Cachorro morto

Certas coisas na vida não se renovam. Por isso digo que debater a postura da imprensa, em alguns casos, é chutar cachorro morto. Tenho para mim que a mídia não vai mudar. Ela depende da publicidade e vai continuar produzindo o espetáculo da vida alheia para vender seu conteúdo jornalístico. Minha modesta análise diz que a única mobilização a ser feita é na mente das pessoas, para que estas saibam separar o joio do trigo. Não mais que isso. Mas, como afirmei, ‘certas coisas na vida não se renovam’. Logo, alguns detalhes ainda pedem reflexão. Num passeio por portais de notícia na internet, cruzei com algo que pode ser chamado no mínimo de hiato. “Veja fotos dos cães feios enviados por leitores”, salientava a chamada do site globo.com. Sim, é isso mesmo: um concurso online, promovido por uma das maiores redes de comunicação do mundo, elegendo o cão mais feio do ano. Cogitei até a hipótese de proclamar o clichê de que “gosto não se discute”, mas não foi possível. Chamo ao menos de inquieta...

Muito mais do que ratos com asa

Sua imagem está associada a muitas coisas — do Espírito Santo à paz mundial. Eles têm também importante parcela na história da humanidade, especificamente no âmbito da comunicação. Conhecidos por muitos como “ratos com asas”, quase sempre infestam praças em grandes cidades. Sim, falamos de pombos. Hoje eles figuram ao lado de baratas, moscas, ratos e outros seres asquerosos comuns ao homem. Contudo, existe um passado glorioso que reverbera até o presente. A aparição dos pombos na história coincide com hieróglifos egípcios e escritos mesopotâmicos. É provável que o povo egípcio tenha sido o primeiro a explorá-los como mensageiros, enviando-os pelo mundo para anunciar a ascensão de um faraó ao trono. Consta ainda que, na Grécia antiga, as aves eram usadas para transmitir o resultado das olimpíadas. No Império Romano, eles percorriam toda a costa do Mediterrâneo, levando informações sobre as possíveis invasões e as movimentações do inimigo. Em meados do século XIX, quando a comunicação ai...

Silêncio

Num silêncio esquisito é que queria ler a mim mesmo. Porque o silêncio é isso: tempo seu. E em pensar existir algo tão sublime, como o próprio, nasce o silêncio de si. Tudo no instante. Dedos cegos de lascívia buscam o silêncio; olhares baixos desabrocham o silêncio; respirações atônitas ficam frias e serenas ao brilho do silêncio. Ele é quase compartilhado. Todos o têm! Só o tempo e o silêncio do outro não são teus. Ele se modifica, se metamorfoseia. Por isso não consigo ver o outro em silêncio: quero ver a mim – e então não aceito. Quero a precisão do meu ser no silêncio do outro, e aquela não pertence nem a mim e nem ao outro. É de ninguém. Não a tenho. Mas quero! E aí recebo a frustração. Não transgrido. Não sou um além homem. Farsa, versão, simulacro. Porque não conheço e não respeito o silêncio do outro. E no meu silêncio, que deveria só a mim pertencer, não me percebo. Entro em silêncio para sair de mim – e não para olhar a mim. Erro. E por isso não vivo. E por isso morro. E...

Mais do que o grotesco espetáculo da vida alheia

É sabido, por muitos, que o estimado Big Brother Brasil (BBB) é uma genuína máquina de gerar lucros. Quanto a isto, pouco se deve discutir – visto que o sucesso do reality show é fato. Somada à edição atual, foram quase 10 programas em que a audiência estrondosa sucumbiu às expectativas do público – e da própria Rede Globo. Para se ter idéia, a oitava versão do programa, exibida no ano passado, chegou a números invejáveis de votos num paredão: não menos que 64 milhões de participantes. Estima-se que a população brasileira beire 190 milhões de pessoas. Com uma matemática infantil, é possível observar que a democracia do BBB8 obteve cerca de um terço dos brasileiros influenciando em seu resultado. Na ocasião, a Globo angariou média de 300 mil reais com a interação do público – entre votações da internet, torpedo via celular e telefone fixo. Contudo, isto é café pequeno se comparado aos merchandisings e patrocínios do programa. E não é só isso. A empreitada virtual da quarta maior emisso...

Meu carnaval

Por Frei Betto Chega o Carnaval e, com ele, a tristeza de palhaço que vê o circo pegar fogo. Fico surdo aos tamborins, cego à desnudez das mulheres e de nariz tapado ao cheiro ácido do suor quente. É outro o Carnaval que tanto anseio. Não o de salões abarrotados de gritos desconexos, nem desfiles que disfarçam de luxo a indigência do povo. Quero a alegria dalma, arlequim bailando em meu espírito, o odor suave da colombina afagando os meus cabelos. Quero a serpentina enlaçando fraternuras e confetes caindo como estrelas nos telhados de meus sonhos. Quero o rei Momo premiando o meu país de farturas e o corso da alegria atravessando as ruas dos meus passos.  Não irei a bailes ébrios de álcool, nem me atarei a cordões que me algemam a liberdade. A mim pouco importa que, no Carnaval, homens se fantasiem de mulheres e mulheres vistam-se como homens. O que ambiciono é mais ousado: virar-me pelo avesso, trazer à tona aquele que sou e não tenho sido, travestir-me de mim mesmo, da minha face mai...

A vida transporta na música, na dança e no circo

A história da arte é, inevitavelmente, a história da humanidade. Os mais antigos símbolos da civilização estão sempre relacionados à produção artística de diferentes povos; em dado espaço e tempo. Diz-se que o nascimento da arte é algo imensurável. Desde sempre ela existiu, comunicando, criando novas perspectivas sobre o real. Nos primórdios da pré-história o que se via não era efetivamente a arte, mas sim os caminhos que possibilitaram seu desenvolvimento. Tudo era feito de forma utilitária e, de certo modo, racionalista. O teatro tinha função jornalística na Grécia antiga; expondo os fatos sociais por meio das representações artísticas. Acredita-se que a dança esteja ligada a rituais e comemorações por caçadas bem sucedidas, repetindo movimentos dos animais ou até mesmo dos caçadores. Já o circo, que tem seu gene na cultura oriental, especificamente na China, utilizava a acrobacia como forma de treinamento para os guerreiros; que buscavam agilidade, flexibilidade e força. A inten...

De onde mesmo? From o quê?

trabalho tosco para revista tosca sobre assunto tosco escrito por pretenso jornalista tosco C ansados de serem intitulados como seres risíveis em shopping centers, galerias e ruas das metrópoles, os melindrosos emos resolveram dar um saudoso sim à vida, mudando as regras do seu estilo. As lágrimas foram para a gaveta, substituídas pelo visual e pela popularidade na internet. Claro, mudar o nome também ajuda a desvincular o estigma negativo do passado. Agora, a trupe atende por “ From UK ”. Inspirados no requinte de adolescentes do Reino Unido, os From UK resolveram trocar o velho mad rats do emo por scarpins e plataformas. O laquê entupiu a cabeça das garotas, que buscam perfeição e destaque com o visual. Aos rapazes, o bom e velho mullet dominou os cérebros – ou será nuca? -, mantendo um ar de original no emaranhado capilar dos meninos. Tinta e franja ainda são bem vindas – e unissex. Na internet a história se repete: fotolog, orkut, miguxu, m...