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Cachorro morto

Certas coisas na vida não se renovam. Por isso digo que debater a postura da imprensa, em alguns casos, é chutar cachorro morto. Tenho para mim que a mídia não vai mudar. Ela depende da publicidade e vai continuar produzindo o espetáculo da vida alheia para vender seu conteúdo jornalístico. Minha modesta análise diz que a única mobilização a ser feita é na mente das pessoas, para que estas saibam separar o joio do trigo. Não mais que isso. Mas, como afirmei, ‘certas coisas na vida não se renovam’. Logo, alguns detalhes ainda pedem reflexão.
Num passeio por portais de notícia na internet, cruzei com algo que pode ser chamado no mínimo de hiato. “Veja fotos dos cães feios enviados por leitores”, salientava a chamada do site globo.com.
Sim, é isso mesmo: um concurso online, promovido por uma das maiores redes de comunicação do mundo, elegendo o cão mais feio do ano. Cogitei até a hipótese de proclamar o clichê de que “gosto não se discute”, mas não foi possível. Chamo ao menos de inquietante o fato de pessoas quererem tornar pública a estrutura estética de seus “amigos” do reino animal — pautados, notadamente, numa pseudo-fama. E o pior: um importante veículo de comunicação ver relevância pública em noticiar tamanha bizarrice.
O consolo — se é que existe — é que a história não partiu de mentes tupiniquins. O concurso tem gene nos Estados Unidos, realizado há alguns ano durante a feira de Sonoma-Marin, em Petaluma, estado da Califórnia. A Globo não ficou alheia ao pódio estadunidense e resolveu consagrar os quadrúpedes domésticos brasileiros.
Não há ética que permeie o jornalismo dizendo que este deva tratar apenas questões voltadas à política, à economia e afins. “Nem só de pão vive o homem”. Penso ser comum que pessoas queiram alicerçar parte de seu dia com um pouco de banalidades — e me incluo nesta lista. No entanto, a maior rede de comunicação do país talvez possa hierarquizar a informação de melhor forma; lutando para que o espetáculo não sucumba questões de maior relevância social.
É notório que o espetáculo, neste caso, trabalha como espécie de ‘fetichismo’ da informação. Explico. Em busca de notoriedade — esta possivelmente alcançada caso seu cão seja muito feio —, pessoas sucumbem tudo o que não for midiaticamente “legal”, alegando que senso crítico é coisa de intelectual mal-humorado do século passado. O importante é estar feliz e fazer parte do show.
E aí se cria um fetiche, um desejo imensurável do público de consumir informações tidas como “descoladas” — e sem nenhum caráter questionador — que acabam produzindo seres humanos alheios a inúmeras mazelas sociais. A propaganda é uma só: aparecer vale muito mais do que olhar para o lado. Todos querem usufruir de uma imagem.
A tentativa parece funcionar. Dias após a publicação da reportagem, o portal G1 contava com cerca de 30 candidatos para a disputa do troféu feiúra. Ao menos não restam dúvidas de que, com a ajuda da mídia e do reino animal, é possível ficar famoso — consumindo uma sensação de satisfação ilusória ao ter seu nome mencionado abaixo da foto de seu amigo cão. Feio, mas amigo!

Publicado em: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=547ENO003

e: http://www.webdiario.com.br/?din=view_noticias&id=34704&search=

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