Pular para o conteúdo principal

Silêncio

Num silêncio esquisito é que queria ler a mim mesmo. Porque o silêncio é isso: tempo seu. E em pensar existir algo tão sublime, como o próprio, nasce o silêncio de si. Tudo no instante. Dedos cegos de lascívia buscam o silêncio; olhares baixos desabrocham o silêncio; respirações atônitas ficam frias e serenas ao brilho do silêncio.

Ele é quase compartilhado. Todos o têm! Só o tempo e o silêncio do outro não são teus. Ele se modifica, se metamorfoseia. Por isso não consigo ver o outro em silêncio: quero ver a mim – e então não aceito. Quero a precisão do meu ser no silêncio do outro, e aquela não pertence nem a mim e nem ao outro. É de ninguém. Não a tenho. Mas quero!

E aí recebo a frustração. Não transgrido. Não sou um além homem. Farsa, versão, simulacro. Porque não conheço e não respeito o silêncio do outro. E no meu silêncio, que deveria só a mim pertencer, não me percebo. Entro em silêncio para sair de mim – e não para olhar a mim. Erro. E por isso não vivo. E por isso morro. E morrer é exagero. E por isso não se morre por completo. Morre-se lentamente, morre-se mentindo, morre-se em silêncio.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Arte e pesadelo como ferramentas de sedução em Cisne Negro

Não é à toa que o novo filme do estadunidense Darren Aranofsky, Black Swan (Cisne Negro, em tradução literal), tem suscitado tantos burburinhos. Isto porque a sensibilidade do diretor está transposta de forma extrema para as telas na história de Nina Seers (Natalie Portman, favorita ao Oscar de melhor atriz e vencedora do Globo de Ouro e o do Sindicato dos Atores pelo papel), bailarina extremamente disciplinada e perfeccionista escolhida como a Rainha dos Cisnes, numa nova encenação de O Lago dos Cisnes , do russo Tchaikovsky. De antemão, todo o preconceito relacionado ao balé e à dança clássica é desestruturado com a visão hipnótica e perturbadora desenhada na trama. Aranofsky utiliza uma estrutura diferente para elucidar a paranoia sofrida pela personagem, que por várias vezes chega ao terror físico, demonstrando uma busca pelo virginal existente em qualquer atividade artística – num espetáculo estético do cinema. Adentrando um mergulho profundo da psicose humana, o longa se pauta a...

O delírio da falta ou uma aprendizagem

Hoje o dia se deu anêmico. As pessoas se abraçaram, as crianças titubearam pelas ruas, os transeuntes perguntaram uns aos outros que horas eram e um coágulo de sangue cresceu como uma doença de vida. No cemitério, uma lápide se desenhara na mesma proporção dos prantos que corriam junto de uma flor vermelha que só agora nascera. Nascera do caos, da incerteza, da obsolescência programada, da constipação da morte que se fazia rubra e sem freio-de-mão, reverberava no ar, num tom esquisito do que só agora é sangue. E a flor, ao tirar sua cor das extintas almas que vivem do vazio da perda, era a flor mais justa, era flor da terra. A vida fazia seu ciclo entre as muitas perguntas que uma morte suscitava - e quem nem uma mãe que beija um filho por amor responderia. Daí sorriam a angústia, a perda, a ausência, a palavra não dita, o afeto não divulgado, o abraço esquecido, o sorriso amarelo, a falta que por horas fora esquecida e por momentos imprecisos se anunciava co...

Polícia: Segurança da População?

E a vida continua sendo supérflua. Ao menos foi o que os cariocas – e boa parte do país – presenciaram no último domingo, no que se pode chamar de tragédia policial – mais precisamente, tragédia familiar . Alessandra Soares voltava de uma festa com os filhos João Roberto, de 3 anos, e Vinícius, de 9 meses, quando avistou um automóvel Stilo preto, passando em alta velocidade por seu veículo. Cautelosa, Alessandra resolveu encostar o carro, abrindo espaço para uma viatura policial que vinha após o primeiro veículo. Agiu mal. Os policiais deferiram 15 tiros de metralhadora contra os suspeitos, ou melhor, contra a família de Alessandra. Desolada, a mãe chegou a jogar a bolsa dos filhos para fora do carro, tentando alertar os policiais que, acabaram por acertar um tiro na cabeça de João Roberto. Mesmo os militares alegando que o carro de Alessandra ficou entre o fogo cruzado, testemunhas – e as câmeras do circuito interno de um prédio próximo ao local – contrapõem a tese, afirmando que os p...