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O delírio da falta ou uma aprendizagem



Hoje o dia se deu anêmico. As pessoas se abraçaram, as crianças titubearam pelas ruas, os transeuntes perguntaram uns aos outros que horas eram e um coágulo de sangue cresceu como uma doença de vida.

No cemitério, uma lápide se desenhara na mesma proporção dos prantos que corriam junto de uma flor vermelha que só agora nascera. Nascera do caos, da incerteza, da obsolescência programada, da constipação da morte que se fazia rubra e sem freio-de-mão, reverberava no ar, num tom esquisito do que só agora é sangue.

E a flor, ao tirar sua cor das extintas almas que vivem do vazio da perda, era a flor mais justa, era flor da terra. A vida fazia seu ciclo entre as muitas perguntas que uma morte suscitava - e quem nem uma mãe que beija um filho por amor responderia.

Daí sorriam a angústia, a perda, a ausência, a palavra não dita, o afeto não divulgado, o abraço esquecido, o sorriso amarelo, a falta que por horas fora esquecida e por momentos imprecisos se anunciava como o petróleo que brota do chão somente no segundo exato de existir.

Ele, que fora papai Noel nas festas, o balaústre da família errônea, dava sinais de que a completude de ser nem sempre é o que pensávamos. Haja Deus.

O vácuo adormecido - o sistema de erros num dia seco e agudo como um resquício de luz penetrando a uma caverna - fez-se vivo. Nem o engano involuntário e nem o hiato do dia deram conta de que o sagrado terror virara agora jubilação.

Dos despojos, os poucos que sobraram, os jardins brotam rosas secas e dispersas num espasmo que já não é mais vida - e sim lágrimas. A hora úmida do dia correu.

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