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Apuros acadêmicos

Pela manhã imagens talvez se encaixassem num texto. Era o horário que costumavam me brindar. Retomei os músculos de algumas palavras; lembrei de sílabas numa orquestra conjunta, desenhando realidades a quem estivesse a lê-las; notei o impacto ao juntar resmungos silabados, produzindo um seco eco final. Em suma, não diferente de outrora, os pensamentos brilhavam, mas se esvaiam e me davam tchau – soprando o oco “nada”. Básico. Universos vêm e vão. Vão mais do que vêm. De qualquer forma, o ócio me conduziu a uma indagação e, notadamente, a uma descoberta – assumidamente tola. Por nenhum momento, nem mesmo num espasmo de “saia do ostracismo”, produzi algo direcionado à morada de minhas palavras. Ingrato, bastardo, um quase réu. Quer dizer, produzi para o mundo virtual – até por que boa parte do que escrevo chega, ao máximo, a papéis impressos, a um site qualquer ou a pretensos manuscritos –, mas não especificamente para o blog. Mensuro que aquela história de meu querido diário está u...

Nas entrelinhas da CPTM

Ao ser aberta a porta do carro da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), a cena lembra a entrada de estádio de futebol em dias de clássico. O ar que escapa de dentro do veículo, mistura de suor mesclado à brisa fresca do fim da tarde, demonstra a quantidade de trabalhadores que usufruem do trem. Aparentemente, um cenário comum nas grandes cidades do Estado de São Paulo, se não fossem as pessoas que nem iam e nem voltavam do trabalho, mas sim trabalhavam. E o mais importante, trabalhadores esses que não excediam os 15 anos de idade. A ação tem início. Meninos e meninas desfilam com amendoins, cervejas, canetas e lixas de unha, tudo a preços módicos. Os clientes aparentam normalidade e contribuem para o comércio. “Funciona mais ou menos como uma lei da oferta e da procura, se há vendedores nos trens, é porque existem compradores para seus produtos. E, se as crianças continuam o comércio, é porque há lucro envolvido”, exclama Márcio Silveira, encarregado da estação de Osasco. ...

Mikhailovich

"De fato, não existe nada mais deplorável do que, por exemplo, ser rico, de boa família, de boa aparência, de instrução regular, não tolo, até bom, e ao mesmo tempo não ter nenhum talento, nenhuma peculiaridade, inclusive nenhuma esquisitice, nenhuma idéia própria, ser terminantemente como todo mundo. Tem riqueza, mas não do tipo Rothschild; a família é honesta, mas nunca se distinguiu por nada; aparência boa, mas muito pouco expressiva; boa instrução, mas não sabe em que empregá-la; tem inteligência, mas sem idéias próprias; tem coração, mas sem magnanimidade etc. etc. em todos os sentidos..."

Palavra amor

"Não facilite com a palavra amor. Não a jogue no espaço, bolha de sabão. Não se inebrie com o seu engalanado som. Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro). Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra. Não a pronuncie".

A corpolatria faz suas vítimas

Não raro os padrões de beleza – ou a falta destes – inquietam milhões de pessoas. Muitos homens e mulheres têm a pretensão de se enquadrarem ao que é esteticamente aceito e, focados nisto, acabam por escravizar seus hábitos mais simples em busca da perfeição. Comer menos, beber menos, dormir menos, viver menos; tudo em prol da pseudo-beleza. Mas não paramos por aí. Modificar determinados hábitos parece não saciar a histeria estética. Dados da Organização Mundial de Saúde apontam crescente aumento nos casos de bulimia e anorexia – sendo que 20% dos incidentes terminam em morte. Provocar o próprio vômito para evitar a nutrição, no caso do bulímico, ou manter-se numa fome contínua, no caso do anoréxico, não são mais problemas quando o objetivo é estar dentro do estereótipo do sublime. Esta busca incessante confunde as prioridade humanas e acaba sobrepondo valores morais e éticos. Óbvio, alguém lucra com isso. A milionária indústria da beleza alucina seus clientes com a premissa de que, ao...

Estórias de Magoo Mcfly

Fotos por Jozzu São Paulo e seus símbolos. Nas avenidas, nos bueiros ou dentro das galerias, sempre há algo que mostre a cara da cidade. Incluam nesta lista pessoas, principalmente as com trejeitos ímpares. O ilustrador Magoo não é exceção e digo o motivo. Na região da avenida Paulista com rua Augusta sabe-se bem de quem estamos falando. Segundo o próprio, são mais ou menos 15 anos nas ruas: “boteco, grafite, rock, arte”. Chovia levemente. Num início de noite fria acabamos por escolher a mesa próxima ao forno. Magoo, cujo verdadeiro nome não revela, desenha desde a infância – mas somente em 1993 é que começou a tentar carreira profissional. Foi na escola Panamericana de Artes que ele ficou mais técnico – em diversos aspectos. Nos 4 anos que estudou por lá apreendeu muita coisa, mesmo contrariando o que os professores pediam: “eu não fazia os desenhos propostos. Criava coisas bizarras, mas era aprovado”. Mesmo assim, o rebelde comenta que tinha relação amigável com os instrutores, sendo...

Proibido para menores de 50 anos

Quando Gildete Nascimento dos Santos faleceu, em meados de 2004, Pedro Rosendo do Nascimento imaginou que seu fim também estava próximo. Casado com Gildete desde a década de 50, Nascimento, de 77 anos, mais conhecido como “Pedro Pastel”, pensava não existir vida sem sua amada. “Eu conversava comigo mesmo, mas não entendia o que estava sentindo, o copo era meu companheiro”, desabafou Pastel. Mas algo havia de acontecer. Foi o médico da família – que inclusive havia cuidado de Gildete – que diagnosticou o problema: “O senhor sofre de depressão, Pedro, mas eu tenho a cura: o Clube de Malhas na Vila dos Remédios”, aconselhou o doutor. Para espanto de todos, numa tarde de domingo o septuagenário resolveu não assistir ao programa Sílvio Santos e sim seguir o conselho do médico. Era dia de sorrir. De sapato bicolor, perfume floral e terno branco, Pedro Pastel passou a mão nas chaves da Brasília 78 e caiu na balada. Chegando ao Clube de Malhas, em Osasco, ele se encantou. O som alto, a pista i...