Pular para o conteúdo principal

Nas entrelinhas da CPTM

Ao ser aberta a porta do carro da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), a cena lembra a entrada de estádio de futebol em dias de clássico. O ar que escapa de dentro do veículo, mistura de suor mesclado à brisa fresca do fim da tarde, demonstra a quantidade de trabalhadores que usufruem do trem. Aparentemente, um cenário comum nas grandes cidades do Estado de São Paulo, se não fossem as pessoas que nem iam e nem voltavam do trabalho, mas sim trabalhavam. E o mais importante, trabalhadores esses que não excediam os 15 anos de idade.
A ação tem início. Meninos e meninas desfilam com amendoins, cervejas, canetas e lixas de unha, tudo a preços módicos. Os clientes aparentam normalidade e contribuem para o comércio. “Funciona mais ou menos como uma lei da oferta e da procura, se há vendedores nos trens, é porque existem compradores para seus produtos. E, se as crianças continuam o comércio, é porque há lucro envolvido”, exclama Márcio Silveira, encarregado da estação de Osasco. Nos seus 9 anos de CPTM, ele conta que já viu meninos se tornarem homens trabalhando nos trens, sem nenhuma perspectiva de vida e, de certa forma, excluídos.
Lutando contra essa exclusão social, algumas instituições buscam erradicar o trabalho dos menores. É o caso do Conselho Tutelar, órgão permanente e autônomo, encarregado de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente.
Em um restaurante oriental de Barueri, Paulo Roberto Teixeira Junior, conselheiro tutelar do município, fala sobre a problemática do caso. Atencioso, ele comenta da parceria dos Conselhos Tutelares com a CPTM, que realiza operações uma vez a cada mês procurando diminuir o número de menores nos trens: “A ação consiste em localizar os vendedores, apreender as mercadorias – que direcionamos à CPTM – e procurar os pais. Quando intimados, os responsáveis comparecem para explicar se sabem do trabalho do menor, e, em caso de reincidência, podem até perder a guarda da criança”.
Mesmo com essas operações, Junior diz não haver muito o que ser feito, uma vez que só podem ser tomadas providências em relação aos moradores do município. A burocracia abre espaço para que crianças de Barueri dirijam-se a outras estações para trabalhar, ou que crianças de outras localidades sejam abordadas na cidade. “Uma vez encontramos no trem uma família de romenos, 7 crianças e 2 adultos. Nada pôde ser feito, já que eles moravam na rua Aurora, centro de São Paulo, região pela qual não somos responsáveis”, lamenta o conselheiro. Mesmo com seu cargo, Junior entende que o problema é mais extenso, que não são essas medidas que vão resolver a questão.
“A demanda é muito grande, por mais que façamos algo o país está abandonado no sentido de projetos sociais há muitos anos, não se consegue tirar todo mundo da rua”, explica – com ar de conformado – Jaci Pinheiro, secretário de emprego e desenvolvimento social de Itapevi. Ele tem a mesma visão do conselheiro de Barueri, argumentando ainda que os municípios dependem – e muito – do Estado para tomar alguma iniciativa e, justamente por esta “prisão”, não conseguem agir.
Na prática, a história é outra. Fábio dos Santos Ribeiro, guarda da estação de Carapicuíba, coloca outros detalhes em pauta. Num feriado ensolarado, ele conta que a ordem expressa é apreender as mercadorias e nada mais, não passando o caso ao Conselho Tutelar. Ribeiro entende que o problema é cessado momentaneamente, sendo que, no dia seguinte, aquela mesma criança voltará à sua “jornada de trabalho”. Segundo ele, cervejas e refrigerantes “somem” quando apreendidos, e o restante vai para uma central da CPTM. Sobre o trabalho em si, o vigilante comenta: “É péssimo tirar o único meio de sustento dessas crianças. Ninguém faz nada por eles além de repreendê-los, e eu, que tenho essa obrigação, fico me questionando como seria se estivesse no lugar deles no dia de amanhã”.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Arte e pesadelo como ferramentas de sedução em Cisne Negro

Não é à toa que o novo filme do estadunidense Darren Aranofsky, Black Swan (Cisne Negro, em tradução literal), tem suscitado tantos burburinhos. Isto porque a sensibilidade do diretor está transposta de forma extrema para as telas na história de Nina Seers (Natalie Portman, favorita ao Oscar de melhor atriz e vencedora do Globo de Ouro e o do Sindicato dos Atores pelo papel), bailarina extremamente disciplinada e perfeccionista escolhida como a Rainha dos Cisnes, numa nova encenação de O Lago dos Cisnes , do russo Tchaikovsky. De antemão, todo o preconceito relacionado ao balé e à dança clássica é desestruturado com a visão hipnótica e perturbadora desenhada na trama. Aranofsky utiliza uma estrutura diferente para elucidar a paranoia sofrida pela personagem, que por várias vezes chega ao terror físico, demonstrando uma busca pelo virginal existente em qualquer atividade artística – num espetáculo estético do cinema. Adentrando um mergulho profundo da psicose humana, o longa se pauta a...

O delírio da falta ou uma aprendizagem

Hoje o dia se deu anêmico. As pessoas se abraçaram, as crianças titubearam pelas ruas, os transeuntes perguntaram uns aos outros que horas eram e um coágulo de sangue cresceu como uma doença de vida. No cemitério, uma lápide se desenhara na mesma proporção dos prantos que corriam junto de uma flor vermelha que só agora nascera. Nascera do caos, da incerteza, da obsolescência programada, da constipação da morte que se fazia rubra e sem freio-de-mão, reverberava no ar, num tom esquisito do que só agora é sangue. E a flor, ao tirar sua cor das extintas almas que vivem do vazio da perda, era a flor mais justa, era flor da terra. A vida fazia seu ciclo entre as muitas perguntas que uma morte suscitava - e quem nem uma mãe que beija um filho por amor responderia. Daí sorriam a angústia, a perda, a ausência, a palavra não dita, o afeto não divulgado, o abraço esquecido, o sorriso amarelo, a falta que por horas fora esquecida e por momentos imprecisos se anunciava co...

Polícia: Segurança da População?

E a vida continua sendo supérflua. Ao menos foi o que os cariocas – e boa parte do país – presenciaram no último domingo, no que se pode chamar de tragédia policial – mais precisamente, tragédia familiar . Alessandra Soares voltava de uma festa com os filhos João Roberto, de 3 anos, e Vinícius, de 9 meses, quando avistou um automóvel Stilo preto, passando em alta velocidade por seu veículo. Cautelosa, Alessandra resolveu encostar o carro, abrindo espaço para uma viatura policial que vinha após o primeiro veículo. Agiu mal. Os policiais deferiram 15 tiros de metralhadora contra os suspeitos, ou melhor, contra a família de Alessandra. Desolada, a mãe chegou a jogar a bolsa dos filhos para fora do carro, tentando alertar os policiais que, acabaram por acertar um tiro na cabeça de João Roberto. Mesmo os militares alegando que o carro de Alessandra ficou entre o fogo cruzado, testemunhas – e as câmeras do circuito interno de um prédio próximo ao local – contrapõem a tese, afirmando que os p...