Pela manhã imagens talvez se encaixassem num texto. Era o horário que costumavam me brindar. Retomei os músculos de algumas palavras; lembrei de sílabas numa orquestra conjunta, desenhando realidades a quem estivesse a lê-las; notei o impacto ao juntar resmungos silabados, produzindo um seco eco final. Em suma, não diferente de outrora, os pensamentos brilhavam, mas se esvaiam e me davam tchau – soprando o oco “nada”.
Básico. Universos vêm e vão. Vão mais do que vêm. De qualquer forma, o ócio me conduziu a uma indagação e, notadamente, a uma descoberta – assumidamente tola. Por nenhum momento, nem mesmo num espasmo de “saia do ostracismo”, produzi algo direcionado à morada de minhas palavras. Ingrato, bastardo, um quase réu. Quer dizer, produzi para o mundo virtual – até por que boa parte do que escrevo chega, ao máximo, a papéis impressos, a um site qualquer ou a pretensos manuscritos –, mas não especificamente para o blog.
Mensuro que aquela história de meu querido diário está um tanto démodé. Queria fugir dela e, ao mesmo tempo, dar grito de vida. De fato, o “tu deves” nietzscheniano está sempre a me sorrir e cobra juros altos por isto. Ao contrário do que profetizou o alemão e o senhor Zaratustra, ele aparece risonho numa moral pelo “fazer” – não seu antônimo. Por isso a necessidade das palavras.
Prometi a mim mesmo mil narrativas em momentos de banho, tédio em coletivos, filas bancárias e noites ao léu. Claro, boa parte me fugiu – a exceção desta.
Poucos têm conhecimento, mas, num passado não tão longínquo, já me arrisquei pelo mundo esportivo. Mantenham-se inertes: foi por pouco tempo, suficiente apenas para uma estória. “Revigora, rejuvenesce, simboliza saúde, traz disposição” – dizem sobre. E em dado momento comprei a tese.
Numa academia, não tão próxima do local em que residia à época, eu arriscava algumas braçadas. Crawl, costas, peito, borboleta – o último, que muito me apetece, não passou do campo metafísico, visto que minha coordenação motora não chega a ser digna de receber o próprio nome. Imitando a natureza e os animais aquáticos, eu quase nadava.
Mantinha-me assíduo às aulas. À exceção de minha rinite, parceira de todas as braçadas, tudo funcionava. Aliás, a “inflamação mucosa do nariz” – segundo teóricos – talvez fosse a mais evolutiva. “Sobreviveria”, pensava. Quem me cruzava naquela época deve se lembrar de uma quase jactância ao dizer que entrara para o time dos nadadores. Não em sentido literal, óbvio, levando em conta que minhas competições acerca do esporte se limitam ao jockey pow. Mas digo, minimamente, aprendi a boiar.
A aula havia terminado a mais de dez minutos, e o vestiário já começava se tornar local despovoado. Sorte a minha. Preparei meu sabonete, o xampu – que iria guerrilhar com o cloro da piscina –, bermuda, desodorante, camiseta, cueca e... um item me faltava. Não notei de pronto. De banho tomado o cloro virara lenda e eu emitia um quase sorriso. Cabelos pingando ao vento que reverberava da porta principal e...cadê minha toalha?
Ela era lenda, eu a havia esquecido. Da mesma forma, nenhum contato humano lembrava que eu existia, nenhum bom cristão que pudesse me fornecer uma toalha – mesmo que usada – circulava pelo local. Sem mais delongas, a única peça que poderia pretensamente saciar a água que me escorria ao corpo – e que, naquele momento, parecia não me fazer falta – era a cueca.
Não preciso continuar a história. “Portador de um metro e noventa centímetros de altura salvo pela própria cueca”; a chamada soa bem. Hoje, anos após o lapso, o esporte para mim se limita aos cadernos homônimos que contemplam os jornais. E, não tenho dúvidas, deve ser praticado pelos apreciadores da arte – mesmo que seja na modalidade por mim desenvolvida: secamento com cueca.
Comentários