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Bial e a nossa cultura

A Revista Quem – pioneira no ramo das ‘celebridades’ –, publicou em março deste ano uma entrevista com o jornalista e apresentador da Rede Globo, Pedro Bial. “Tenho zero de preocupação em dar um aspecto cultural ao programa. Acho que tudo é cultura. Big Brother é tão cultura quanto Guimarães Rosa”, opinou Bial. Que a Rede Globo utiliza sua influência cultural – tida por muitos como algo venerável – para vender o espetáculo da vida alheia, não é novidade. O que realmente precisa ser colocado em questão é até que ponto a emissora e seus ‘mensageiros’, contribuem para manter o povo distante da cultura e da reflexão? Ao exibir um reality show que trabalha com pessoas ditas comuns , o império Global angaria cada vez mais adeptos ao seu padrão de cultura, colocando a televisão e o espetáculo à frente de qualquer fato e, inevitavelmente, sucumbindo a informação e o papel social de um meio de comunicação. Tudo é aceito pelos anônimos extraídos da massa de telespectadores que, em busca de not...

A outra Sagarana de João

A obra do mineiro João Guimarães Rosa (1908–67) traz, ainda nos dias de hoje, algo inovador na língua portuguesa. Ambientando-se em sua grande maioria no sertão brasileiro, seus contos e romances criam vocábulos – embasados em dialetos populares e regionais. Arraigados no autor, Fernanda Bastos e Jefferson Brito transformam Guimarães Rosa e sua máxima Sagarana , num espetáculo extremamente atemporal, intitulado A Saga de João . A peça elucida de forma ímpar quatro contos existentes no livro de 1946: “A volta do marido pródigo”, “O Burrinho Pedrês”, “Conversa de bois” e “A hora e vez de Augusto Matraga”. O nome da peça remete aos embates da vida – enfrentados por muitos Joões – em todo o sertão brasileiro, misturando o nome do autor à obra Sagarana. A adaptação mostra os obstáculos que cruzamos em busca da sobrevivência, ou mesmo do ‘final feliz’ que, assiduamente, não sai do imaginário. Buscando trabalhar com jovens estudantes do ensino médio e universitário, a peça expõe fielmente os ...

Desassosego

Entre literatos e decidas à rua Augusta, os desejos nunca haviam sido habitados por nós. No passado, sempre agíamos como se não estivéssemos ali, tratando-se com delicadeza, até com certa inocência fajuta. Dias iguais. Dias que se completavam com xícaras de café e conversas frívolas, escrevendo nas lápides da morte os nossos sentimentos. Apreensão, mãos-trêmulas, melancolia, angústia. Os abraços de despedida deixavam claro o retalho de uma utopia que estava para trocar de estágio. Sabíamos que seria apenas um dia e o nunca mais, mas não nos importávamos, o abraço do medo era só mais um no currículo. O ainda não se esfacelava como grãos entre os dedos, quebrando o controle. Viver carregava consigo esta rebeldia, na maior parte das vezes chamada de não humana. Criando absurdos para controlá-la e, mesmo naturalizando o absurdo, o humano acordava – às vezes. Na sua maior parte nos contentamos com o não há tempo, não há meios, não há condições, não há razão, e não vivemos. Cadáveres ambulan...

Eterno retorno

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!" Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que responderias: "Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: ...

Sobre a falta

Clarice Lispector afirmou: “Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém, que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la…” Estranho? Possível. Mais possível ainda, e pior, é sofrer a dor da falta antes mesmo de vivenciá-la. Ouso afirmar, que só a sinto antes que aconteça. O quão somos dependentes uns dos outros. Justamente por ser o outro – o não-eu, o que na sua própria negação traz a minha afirmação, o que não possui e nunca irá possuir a potenciabilidade de tornar-se eu –, é que nos apaixonamos pelo desejo de sentir sua falta, mesmo ainda estando ao seu lado. Não nos momentos em que sonhamos com esse alguém, mas nos momentos em que o temos, esse sim é o momento da maior dor. Olhar ao lado e entender que aquilo está se findando, é alimentar o suplício. Melhor que não entender? Não sei... O pior é entender que há uma classificação implícita, que avalia a força deste sentimento. Pessoas por medida. É, pessoas que podemos ficar dias, meses, sécul...

Requiem – For A Dream

Há algo que possa mensurar o quão maléficos são os vícios? Um copo de whisky ou uma carreira de cocaína? Uma xícara de café para mantê-lo acordado ou um calmante para fazê-lo dormir? Talvez Requiem – For A Dream (em português, Requiem – por um sonho) não responda a essas questões, mas vai minimamente, fazer-nos refletir sobre elas. O longa-metragem do norte-americano Darren Aronofsky estrelou Ellen Burstyn (Divinos segredos), Jared Leto (Alexandre, O Grande), Jennifer Connelly (Água Negra) e Marlon Wayans (Todo Mundo Em Pânico I e II), sendo Burstyn indicada ao Óscar 2001 de Melhor Atriz por sua atuação na obra. Harry (Leto) é um jovem que junto ao amigo Tyrone (Wayans), quer se tornar traficante de drogas – ambos sendo usuários. Marion (Connelly), a namorada de Harry, tem um grande talento e pretende ser figurinista. A simplória Sara Goldfarb (Burstyn) – mãe de Harry –, desdobra-se para alimentar o vício do filho, tendo como sonho obter notoriedade televisiva. Neste enredo - hor...

Nem tudo acaba em pizza

Tipo de cara que eu invejo é aquele que mal chega a uma roda de desconhecidos e rapidamente já se sente à vontade. Se expressa naturalmente, olha para todos com espontaneidade e logo encontra um assunto pertinente para o ambiente. Pois bem, que fique claro, não tenho nem pretendo ter essa propensão a vereador do bairro, mas vira e mexe acabo cruzando com um desses sem me importar. Eu achava que naquela noite de sábado tudo corria bem. Paulistano que se preze, não faz outra coisa no sábado à noite que não seja se apoderar do telefone e pedir uma pizza. E mais paulistano que isso, só pode convidar aquele clássico casal de amigos para animar o jantar. Receberíamos dois casais em casa, tomaríamos algo, instauraríamos uma filosofia de boteco no próprio lar e pronto, dormiríamos felizes para sempre. Mas não foi bem assim que a coisa resolveu funcionar. Os casais que nos visitariam não eram amigos em comum, logo, as diferenças existiriam. Claro, pessoas civilizadas, qual o problema nisso? Mas...