Pular para o conteúdo principal

Requiem – For A Dream

Há algo que possa mensurar o quão maléficos são os vícios? Um copo de whisky ou uma carreira de cocaína? Uma xícara de café para mantê-lo acordado ou um calmante para fazê-lo dormir?
Talvez Requiem – For A Dream (em português, Requiem – por um sonho) não responda a essas questões, mas vai minimamente, fazer-nos refletir sobre elas. O longa-metragem do norte-americano Darren Aronofsky estrelou Ellen Burstyn (Divinos segredos), Jared Leto (Alexandre, O Grande), Jennifer Connelly (Água Negra) e Marlon Wayans (Todo Mundo Em Pânico I e II), sendo Burstyn indicada ao Óscar 2001 de Melhor Atriz por sua atuação na obra.
Harry (Leto) é um jovem que junto ao amigo Tyrone (Wayans), quer se tornar traficante de drogas – ambos sendo usuários. Marion (Connelly), a namorada de Harry, tem um grande talento e pretende ser figurinista. A simplória Sara Goldfarb (Burstyn) – mãe de Harry –, desdobra-se para alimentar o vício do filho, tendo como sonho obter notoriedade televisiva. Neste enredo - hora desconfortável, hora angustiante – cada personagem vai mostrar o vício ganhando forças de formas distintas.
O caso mais notório é representado pela mãe do protagonista, que vive da companhia de um programa de TV – onde é exposto um misto de auto-ajuda e promoção dos ganhadores, segregando o público entre perdedores e vencedores. Alucinada pelo aparelho, a senhora Goldfarb recebe um convite para participar do programa, e é tomada por uma inquietação quando percebe que o tempo passou, já que ela não cabe mais em um velho vestido. Com esse cenário, a obsessão e a compulsão – agregadas à anfetamina – vão mergulhar a personagem em um mundo fétido.
O gênese da dependência desfila aos nossos olhos com a câmera de Aronofsky, que foi minucioso ao tratar a inocência e a futilidade de quatro pessoas iludidas pelos efeitos químicos. É possível sentir-se como os personagens de Requiem – já que o diretor foca fixamente a visão de um mundo vivido sobre o efeito de psicotrópicos. Mesmo sendo um filme de 2000, o longa trata claramente o debate ainda conturbado das drogas.
Requiem é a personificação da vulnerabilidade humana – desenhado com cenas drásticas e reais –, deixando nítido o ser humano que não se encontra mais em si: sem limites, sem auto-controle, sem vida; na busca do que ele mesmo já não sabe mais o que é. Um tanto quanto senil, mas vale ser visto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Juiz proíbe a entrada de presos no Cadeião de Pinheiros

Nessa segunda-feira (14), o juiz corregedor da cidade de São Paulo, Cláudio do Prado Amaral, vetou a entrada de novos presos no Centro de Detenção Provisória 2, o Cadeião de Pinheiros . Amaral determinou o prazo de um ano, para que a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) reorganize o número de inteiros à sua capacidade. Com espaço para 512 detentos, o CDP abriga 1599. O juiz argumenta que as celas têm apenas 29 metros quadrados, reduzidos ainda pelo espaço ocupado por camas e o banheiro, segundo informou ao portal globo.com. Desta forma, sobram apenas 22 metros quadrados para comportar uma média de 40 presos por cela, perfazendo o exorbitante espaço de meio metro quadrado para cada detento. Respaldado na Constituição Federal – que proíbe penas cruéis e assegura o respeito à integridade do detendo -, o corregedor sustenta que a condição desumana dos presos transforma o CPD em “um barril de pólvora para as rebeliões”. Ele avalia que, “ao descumprir a função de recuperar, deixa ...

O delírio da falta ou uma aprendizagem

Hoje o dia se deu anêmico. As pessoas se abraçaram, as crianças titubearam pelas ruas, os transeuntes perguntaram uns aos outros que horas eram e um coágulo de sangue cresceu como uma doença de vida. No cemitério, uma lápide se desenhara na mesma proporção dos prantos que corriam junto de uma flor vermelha que só agora nascera. Nascera do caos, da incerteza, da obsolescência programada, da constipação da morte que se fazia rubra e sem freio-de-mão, reverberava no ar, num tom esquisito do que só agora é sangue. E a flor, ao tirar sua cor das extintas almas que vivem do vazio da perda, era a flor mais justa, era flor da terra. A vida fazia seu ciclo entre as muitas perguntas que uma morte suscitava - e quem nem uma mãe que beija um filho por amor responderia. Daí sorriam a angústia, a perda, a ausência, a palavra não dita, o afeto não divulgado, o abraço esquecido, o sorriso amarelo, a falta que por horas fora esquecida e por momentos imprecisos se anunciava co...

Das representações contemporâneas

"Às vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo, que no próprio passado, quando vai em busca do tempo perdido, quer suspender o vôo do tempo." Bachelard *** "Felicidade não é uma coisa, é um pensamento. Não é um fato, é uma invenção. Não é um estado, é uma ação. O princípio do prazer contra o universo, e o universo é mais forte. A felicidade não passa de um sonho cuja realização é absolutamente irrealizável: toda ordem do universo se opõe a ela, seríamos tentados a dizer que não entrou no projeto da criação o homem ser feliz." Ronaldo Arnoni *** O homem do excesso. O homem da ilusão. O homem pretenso a ser livre. Eis o homem pós-moderno! Em nome do excesso vivido nos dias atuais, o homem criou a ilusão de que a felicidade poderia ser tangível, encontrada em qualquer supermercado numa embalagem plástica. No entanto, ao comprarmo...