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Nem tudo acaba em pizza


Tipo de cara que eu invejo é aquele que mal chega a uma roda de desconhecidos e rapidamente já se sente à vontade. Se expressa naturalmente, olha para todos com espontaneidade e logo encontra um assunto pertinente para o ambiente.
Pois bem, que fique claro, não tenho nem pretendo ter essa propensão a vereador do bairro, mas vira e mexe acabo cruzando com um desses sem me importar.
Eu achava que naquela noite de sábado tudo corria bem. Paulistano que se preze, não faz outra coisa no sábado à noite que não seja se apoderar do telefone e pedir uma pizza. E mais paulistano que isso, só pode convidar aquele clássico casal de amigos para animar o jantar. Receberíamos dois casais em casa, tomaríamos algo, instauraríamos uma filosofia de boteco no próprio lar e pronto, dormiríamos felizes para sempre.
Mas não foi bem assim que a coisa resolveu funcionar. Os casais que nos visitariam não eram amigos em comum, logo, as diferenças existiriam. Claro, pessoas civilizadas, qual o problema nisso? Mas do que era mesmo que falávamos no inicio de tudo isso? Ah, pessoas com extrema desenvoltura na arte de se relacionar com ‘novos amigos’.
O primeiro casal chegou. Animados, eles não pensaram duas vezes, arrancaram os sapatos, abundaram-se no tapete da sala e a conversa fiada começou a render. Tudo ótimo até então, se sentiam em casa. Como o segundo casal ainda não havia dado sinal de vida, resolvemos telefonar e pedir as pizzas, a fome falava mais alto.
Passada meia hora, o segundo casal chega. Iríamos finalmente conhecer o tão falado ‘novo namorado’ de nossa amiga. Gente descalçada, toalha estendida em pleno tapete, azeite e talheres apostos, enfim, um verdadeiro pardieiro acontecia em nossa sala, mas tudo normal, estávamos entre amigos. O que não contávamos é que o cidadão em questão era praticamente um gentleman – calça social, camisa, gravata, é um prazer conhecê-los, daqueles que apertam sua mão com certo receio, talvez por medo dela estar suja e o mais engraçado, tudo isso para uma pizza entre amigos?
Por mais que seja, ele era daqueles que eu disse que invejo. O cara foi logo conversando com meio mundo, que era da área da ‘tecnologia da informação’, que jogava golf, que a família era a base para uma sociedade mais justa, enfim, um falador de primeira com uma chatice elevada a 29º potência.
Vamos ao jantar relâmpago. Em questão de minutos a pizza chegou, todos apostos engoliram tudo que era azeitona e peperone presente, menos, o senhor cordial. Ele não comia ‘junkie food’, afinal, tinha uma alma prateada e não podia se misturar à plebe. Um sentimento de ofensa aflorou em todos, quem ele pensa que é para negar uma pizza em plena capital?
O bom é que 40 minutos se passaram rápido e o indivíduo desistiu da visita em tempo recorde. Apressou nossa amiga a acompanhá-lo na retirada, talvez para uma partida de xadrez ou, no máximo, um pouco de suco clight (que não engorda) com vodka para dizer que ele é radical – isso sim era viver a vida.
Pelo menos reafirmei meu ritual de que sábado à noite é dia de pizza, afinal, se nessa ocasião estivéssemos em um churrasco, talvez as facas e espetos ganhassem utilidade para estrelar um assassino em sua primeira atuação.

Comentários

Pedro Paiva disse…
prefiro macarrão,vinho e Gabriela! ahahahaha

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