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Desassosego

Entre literatos e decidas à rua Augusta, os desejos nunca haviam sido habitados por nós. No passado, sempre agíamos como se não estivéssemos ali, tratando-se com delicadeza, até com certa inocência fajuta.
Dias iguais. Dias que se completavam com xícaras de café e conversas frívolas, escrevendo nas lápides da morte os nossos sentimentos.
Apreensão, mãos-trêmulas, melancolia, angústia. Os abraços de despedida deixavam claro o retalho de uma utopia que estava para trocar de estágio. Sabíamos que seria apenas um dia e o nunca mais, mas não nos importávamos, o abraço do medo era só mais um no currículo. O ainda não se esfacelava como grãos entre os dedos, quebrando o controle.
Viver carregava consigo esta rebeldia, na maior parte das vezes chamada de não humana. Criando absurdos para controlá-la e, mesmo naturalizando o absurdo, o humano acordava – às vezes. Na sua maior parte nos contentamos com o não há tempo, não há meios, não há condições, não há razão, e não vivemos. Cadáveres ambulantes.
Descontrolado, o desejo tornou-se um terceiro entre nós. Um terceiro superior, ditando as mãos dadas e o escorregão ao ímpar. Dilaceramos-nos, da forma mais animalesca – oculta e domesticada. Ali, findamos o carinho de um ao outro, vulneráveis – transformando o desejo contido em homicida do objeto de desejo. Era o ponto final, o brilho havia se esvaído e, restava a nós, o amargo olhar do mundo com retidão, condenando a si próprio por ter respirado.

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