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Monumento a uma São Paulo chuvosa

Às sete horas da noite desta quinta-feira o Terminal de ônibus da Vila Madalena, na capital paulista, estava vazio. Claro que a ausência era somente de coletivos. Dos mais de dez pontos existentes no complexo, apenas dois continham veículos. A chuva havia vitimado há pouco a terra que leva a garoa no apelido.

Nos pontos, a população estava atônita. Munidos de sacolas, mochilas, guardas-chuva ou simplesmente carregando mais um dia de trabalho, transeuntes entreolham-se na tentativa de amenizar a espera e arrancar um sorriso vivo de alguém.

A cidade já não está mais em estado de atenção para alagamentos, mas ainda assim os resquícios da água perduram. À exceção da zona Sul, todas as outras estavam sob vigia às 17h. As Marginais não estão alagadas, o Tamanduateí não transbordou, não há caminhões do Corpo de Bombeiros pelas ruas e nem o histérico e inútil barulho das sirenes. Mas ainda assim o receio é o que resta numa população que já perdeu a alma com tanta chuva.

Passada meia hora pouco aconteceu. As filas do Terminal apenas cresceram - junto à inquietação dos que lá estavam. Não há nenhum guarda de trânsito no entorno, nenhum lixeiro, nenhum assistente social para recolher o que resta de uma noite que tarda a morrer para o trabalhador.

Morrem sim as pessoas, na tragédia de um dia que custa a terminar. Morrem úmidos, molhados, fatigados pela espera e pelo desconforto. Morrem pelo alagamento que atingiu a alameda Santo Amaro e o largo do Socorro. Morrem pela chuva que ainda caia em Guaianazes, em São Mateus, em Cidade Tiradentes, no Grajaú e em Parelheiros. Morrem pelas várias águas que banharam a metrópole e mesclaram o trânsito ao início de uma noite que não morria.

O ônibus chega. A fila conta mais de 50 pessoa, assim como o relógio que já marca 19h50. Enfileirados, o fio de esperança renasce, e todos já podem esquecer suas desventuras, vendo um cachorro que brinca em meio à calçada do Terminal.

Já lá dentro, num ônibus que pouco anda e a cada ponto perde alguns metros quadrados, o calor aumenta nesta quinta-feira que registrou a maior temperatura do mês de março, 29,7º C. O outono

Presos em algum lugar desta cidade onde os córregos não transbordaram, as bocas-de-lobo não entupiram e, ainda assim, os semáforos enlouqueceram, o cidadão se vê jogado na vala comum dos moradores de uma vilazinha qualquer. A ele resta se acotovelar dentro do coletivo e apagar, com uma frieza dos que não vivem, a flama do dia.

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