Indiscutivelmente, a vida do homem pós-moderno é algo desconcertante. As pressões sociais, a necessidade de uma vida em família, a alienação no trabalho – que, mesmo à revelia de muitos, é sentida pela maioria –, por fim tudo, faz do homem um ser escravizado nas regras e nos costumes de seu meio. Ao mesmo tempo – e em contraponto –, este turbilhão de responsabilidades permite ao ser humano o júbilo de sua existência, pois, é na soma dessas relações – sejam elas positivas ou negativas aos olhos de seu protagonista – que nos caracterizamos como seres civilizados.
Esta luta interna, entre fazer o que desejamos e o que efetivamente necessitamos, constipa o ser. E não paramos por aí. Neste emaranhado de imposições e deleites, mesmo com formas inexplicáveis, encontramos em nós um ser oculto, capaz de atitudes que desconhecemos – sejam para um suposto bem ou mal. A tragédia continua sendo a criadora da forma. Sofremos mutações e, no momento em que as águas nos sucumbem e a respiração começa a faltar, arrumamos forças para mais algumas braçadas, voltando à tona soberanos por reinventar modos de existir.
No livro Le Scaphandre Et Le Papillon – em português O Escafandro e A Borboleta –, o jornalista francês Jean-Dominique Bauby vai além das especulações do possível, expondo de forma concreta como podemos redescobrir o cotidiano.
O ano era 1995 e Bauby editor da revista Elle. Cercado de mulheres e dos holofotes que a carreira lhe proporcionava, o jornalista é surpreendido ao sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), o popular derrame, que o aprisiona a uma condição extremamente rara, chamada de síndrome do encarceramento – locked-in syndrome.
Sem poder mover praticamente nenhum membro do corpo, embora sua mente funcione perfeitamente, Bauby tem um único meio de mostrar que ainda existe, piscando seu olho esquerdo.
Ainda assim, com a ajuda de uma terapeuta e um método especial de comunicação, ele escreve um livro. Com uma placa contendo o alfabeto, a terapeuta vai falando uma a uma das letras para Bauby, que pisca para confirmar sua escolha.
O grande apice na história do francês não é relatar um livro com praticamente um olho, mas sim o quanto se esforça para remodelar sua vida e continuar a buscar seus interesses. O que se vê é um homem além do límite, refazendo toda sua realidade – e não sendo vítima de sua tragédia. O escafandro pesado que sua condição atribuiu ao corpo não impede que sua imaginação flutue como uma borboleta.
Em suma, a metáfora funciona bem. O livro ganhou um filme homônimo trazendo a história de Bauby. Ao contrário do que se imagina, o mote do longa não é o AVC, e sim os meios que o jornalista encontrou para fugir da previsibilidade e ser o super-herói de si. Talvez a antítese de nós, conformados com nossa permissividade e nossos antolhos.
Publicado em: http://www.webdiario.com.br/?din=view_noticias&id=26187&search
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