Cento e vinte oito dias depois de um embate truculento com o setor rural e grande parte da sociedade; após protestos de consumidores munidos de panelaços na capital e nas principais cidades argentinas; estradas bloqueadas por caminhões e tratores, reduzindo o abastecimento de alimentos, combustíveis e produtos industriais nas cidades; a prisão do líder ruralista Alfredo De Angeli; a união das classes média e alta em prol do setor agropecuário; e sua popularidade sofrendo ligeira queda de 20%, a presidente Cristina Kirchner sai derrotada na sua tentativa de manter o projeto de lei que aumentou os impostos sobre exportações agrícolas.Irredutível em sua postura, o casal Kirchner fingiu não entender a mobilização social contra a medida, se contrapondo aos protestos e sustentando a lei desde o início do ano. O próprio Néstor Kirchner, presidente do Partido Justicialista, contribuiu ao mobilizar agentes dentro do Senado para conter o alvoroço, fomentando assim o caos nas ruas e a indignação dos argentinos.
Para a sorte da população, a imposição falhou. Foi por apenas um voto que o Senado vetou, na última semana, a chamada Resolução 125, editada em 11 de março, que havia modificado de 35 para quase 50% a tributação dos produtos agrícolas para exportação. A elevação causou, além de transtornos à população, uma alíquota acima dos limites constitucionais – que é de, no máximo, 35%.
Para a infelicidade de Cristina – e de seu marido e antecessor –, o voto de Minerva que exonerou a resolução partiu do presidente do Senado e vice-presidente da República, Julio Cobos.
A decisão do vice foi fortemente influenciada por conta do clamor social e da relação estremecida com Cristina, que o vinha desprestigiando nos últimos tempos. Cobos chegou a pensar em renúncia, porém, não foi o que ocorreu. Ele driblou o governo, virou herói entre os ruralistas e parece muito disposto a continuar no cargo.
No fim das contas, a manobra populista de Cristina Kirchner custou um preço vertiginoso. A derrota no Senado – primeira em cinco anos de kirchnerismo na Argentina – converteu-se em um duro golpe para o governo, alavancando a oposição e deixando transparecer a pequenez da atual presidente. A próprio braço direto de Cristina, Alberto Fernández, chefe de gabinete, abandonou o barco uma semana após o ocorrido, renunciando ao cargo.
Já a população fortaleceu-se por estar unida e disposta a não ceder às pressões inconstitucionais do governo.
Na economia, a queda-de-braço foi ainda pior. Durante a crise, investimentos em diversos setores despencaram, tendo como palco principal o setor energético, o que quase levou o país a um apagão – necessitando de eletricidade importada do Brasil para amenizar o problema. A inflação acima dos 25% ao ano, somada às dívidas públicas, enfraqueceram as bases governistas e reduziram a qualidade de vida do argentino.
Bem ou mal, a família Kirchner terá de rever as manobras que asseguravam sua hegemonia. Agora, resta saber se eles abriram os olhos e assumiram a crise – o que talvez não seja tão difícil após provas concisas de que, os irredutíveis da história, são os argentinos.
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