19 de abril de 2011

Encontrando Deus

Já experimentou andar no céu? Lá há algumas nuvens que, quando vistas de perto, tem um gosto seco, como se nelas não houvesse água.

Essas nuvens são o mundo a parte, no qual é preciso ter outro tipo de pés para andar. No fundo o céu já é outro mundo. Nele, a ilogicidade do que é terreno já não faz mais sentido. É tudo algodão.

E aí ora ou outra as nuvens sofrem também porque são esburacadas, como as ruas. Você pode caminhar e de repente ver um mundo que está caindo. Quando este mundo cai, as pessoas se vão também. E aí o céu não se aguenta em águas d´chuva - e acaba se vendo obrigado a pingar sangue. Um sangue quente, que em meio ao ar gélido sofre uma convulsão da alma.

A cor dele ninguém vê. É de um vermelho rubro, meio adocicado, que quando desce fica amargo. A tonalidade é dessas conhecidas, igual à da capa da joaninha. A capa natural mesmo.

A joaninha faz de sua capa asas - e enfeite também. É meio parecido com o que o céu faz das nuvens. Da branquidão inexplicável, o céu as transforma em adereço do olhar. E aí lá em cima tudo vira enfeite, menos o sangue que estava caindo.

Do outro lado do céu, na vida da terra, uma menina viu o sangue pingar em seus olhos. Isso foi no mesmo momento em que ela se esclarecia com as nuvens. Por um instante sentia uma imensidão sem nome, uma calma exagerada e repentina, espécie de graça de quem joga flores. Aí não teve jeito, nem o chão do céu segurou o avião, que levou a garota embora no único instante em que ela conversava com Deus.

Tudo ia bem, ela não teve medo de errar. Por isso nem o sangue lhe pulsava além da vida. A vida, aliás, assim como toda mãe, não quer mais ensinar seus filhos a amar. Quer apenas ensinar a perder. Aí era como se já fosse antiga, fazia parte do ritual. Nem o Sol conseguiu segurá-la na perda.

24 de março de 2011

Monumento a uma São Paulo chuvosa

Às sete horas da noite desta quinta-feira o Terminal de ônibus da Vila Madalena, na capital paulista, estava vazio. Claro que a ausência era somente de coletivos. Dos mais de dez pontos existentes no complexo, apenas dois continham veículos. A chuva havia vitimado há pouco a terra que leva a garoa no apelido.

Nos pontos, a população estava atônita. Munidos de sacolas, mochilas, guardas-chuva ou simplesmente carregando mais um dia de trabalho, transeuntes entreolham-se na tentativa de amenizar a espera e arrancar um sorriso vivo de alguém.

A cidade já não está mais em estado de atenção para alagamentos, mas ainda assim os resquícios da água perduram. À exceção da zona Sul, todas as outras estavam sob vigia às 17h. As Marginais não estão alagadas, o Tamanduateí não transbordou, não há caminhões do Corpo de Bombeiros pelas ruas e nem o histérico e inútil barulho das sirenes. Mas ainda assim o receio é o que resta numa população que já perdeu a alma com tanta chuva.

Passada meia hora pouco aconteceu. As filas do Terminal apenas cresceram - junto à inquietação dos que lá estavam. Não há nenhum guarda de trânsito no entorno, nenhum lixeiro, nenhum assistente social para recolher o que resta de uma noite que tarda a morrer para o trabalhador.

Morrem sim as pessoas, na tragédia de um dia que custa a terminar. Morrem úmidos, molhados, fatigados pela espera e pelo desconforto. Morrem pelo alagamento que atingiu a alameda Santo Amaro e o largo do Socorro. Morrem pela chuva que ainda caia em Guaianazes, em São Mateus, em Cidade Tiradentes, no Grajaú e em Parelheiros. Morrem pelas várias águas que banharam a metrópole e mesclaram o trânsito ao início de uma noite que não morria.

O ônibus chega. A fila conta mais de 50 pessoa, assim como o relógio que já marca 19h50. Enfileirados, o fio de esperança renasce, e todos já podem esquecer suas desventuras, vendo um cachorro que brinca em meio à calçada do Terminal.

Já lá dentro, num ônibus que pouco anda e a cada ponto perde alguns metros quadrados, o calor aumenta nesta quinta-feira que registrou a maior temperatura do mês de março, 29,7º C. O outono

Presos em algum lugar desta cidade onde os córregos não transbordaram, as bocas-de-lobo não entupiram e, ainda assim, os semáforos enlouqueceram, o cidadão se vê jogado na vala comum dos moradores de uma vilazinha qualquer. A ele resta se acotovelar dentro do coletivo e apagar, com uma frieza dos que não vivem, a flama do dia.

17 de fevereiro de 2011

"Eu te amo" é suprimido pela tecnologia

Até o amor se deu mal. Ao menos é o que mostra um estudo conduzido por um site que faz comparações por aparelhos celulares, o Goog Mobile Phones, que concluiu que os casais estão mais propensos a dizer "eu te amo" por mensagens de texto do que pessoalmente.

De acordo com o estudo, divulgado pelo jornal The Guardian, 66% dos entrevistados declaram seu amor por SMS - enquanto apenas 22% prefere dar uma de Don Juan DeMarco pessoalmente. O contato físico está em baixa.

Homens mais pegajosos
As entrevistadas do sexo feminino mandam em média uma mensagem amorosa por dia. Já os homens chegam a enviar três mensagens diárias, diz a publicação.

Além disso, 11% dos respondentes do sexo masculino afirma enviar SMS por se sentirem "culpados" por não passar tempo suficiente com as respectivas parceiras. A pesquisa apontou ainda que 39% dos garotos enviam mensagens por sentirem saudades.

Levar um bolo
Cerca de 18% dos entrevistados afirmam ter levado um "fora" por SMS. Mas o número mais drástico está nos que terminam um relacionamento por SMS, 71% da amostra.

O Good Mobile Phones entrevistou 2.137 pessoas acima de 18 anos na Inglaterra. As informações são do Olhar Digital.

14 de fevereiro de 2011

Álcool já mata mais que HIV, diz OMS

Os alcoólatras de plantão - inclusive este que você agora lê - precisam se alertar. A OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou nesta sexta-feira (11) estudo que aponta o consumo de álcool como causador de quase 4% das mortes em todo mundo - porcentagem maior em relação à da Aids e à da violência.

De acordo com o Relatório Global da Situação sobre Álcool e Saúde, cerca de 2,5 milhões de pessoas morrem anualmente por causas relacionadas à bebida alcoólica. Problemas psiquiátricos, males como a epilepsia, doenças cardiovasculares, cirrose e vários tipos de câncer estão atrelados ao consumo de bebidas.

A preocupação se estende além das doenças oriundas do álcool, uma vez que o consumo excessivo gera violência, acidentes de trânsito, transtornos familiares e ausências no trabalho, segundo o estudo.

Mais renda, mais bebida
Países mais populosos dos continentes africano e asiático são apontados com índices maiores de consumo excessivo devido ao aumento da renda da população.

"Mundialmente, cerca de 11% dos consumidores de álcool bebem bastante em ocasiões semanais; os homens superam as mulheres em quatro a cada uma. Eles praticam constantemente um consumo de risco em níveis muito mais elevados do que as mulheres em todas as regiões", afirma o artigo.

As medidas relacionadas à prevenção e à proibição da venda de bebidas alcoólicas para jovens também entram na lista dos percalços do tema. A entidade alerta ainda que o grau de risco para o consumo varia conforme sexo, idade e outras características biológicas - sendo necessário observar a quantidade de álcool consumido e o padrão de consumo das populações nos diferentes países.

10 de fevereiro de 2011

Arte e pesadelo como ferramentas de sedução em Cisne Negro

video

Não é à toa que o novo filme do estadunidense Darren Aranofsky, Black Swan (Cisne Negro, em tradução literal), tem suscitado tantos burburinhos. Isto porque a sensibilidade do diretor está transposta de forma extrema para as telas na história de Nina Seers (Natalie Portman, favorita ao Oscar de melhor atriz e vencedora do Globo de Ouro e o do Sindicato dos Atores pelo papel), bailarina extremamente disciplinada e perfeccionista escolhida como a Rainha dos Cisnes, numa nova encenação de O Lago dos Cisnes, do russo Tchaikovsky.

De antemão, todo o preconceito relacionado ao balé e à dança clássica é desestruturado com a visão hipnótica e perturbadora desenhada na trama. Aranofsky utiliza uma estrutura diferente para elucidar a paranoia sofrida pela personagem, que por várias vezes chega ao terror físico, demonstrando uma busca pelo virginal existente em qualquer atividade artística – num espetáculo estético do cinema.

Adentrando um mergulho profundo da psicose humana, o longa se pauta aparentemente na superação da bailarina para interpretar o posto que lhe foi confiado. Mas o que o diretor de Réquiem para um sonho (2000) quer mostrar que está muito aquém da perfeição na ponta dos pés. A princesa Odete virginal, o Cisne Branco, já incorpora o corpo da protagonista e é facilmente interpretada com técnica e sutileza. O que lhe tira a alma e enegrece o ambiente do filme é a Odete nefasta, o Cisne Negro, que exige agressividade, mutilação e despudor – sensações que a dançarina reprime de forma tão oculta a ponto de não se reconhecer quando as tem.

A garota transformada em cisne e renegada por seu príncipe custa a adentrar às entranhas da personagem, exibindo, com maestria por Natalie Portman, um sofrimento repleto de humanidade, medo, carência e quebra com a inexistente perfeição almejada.

O grupo de coadjuvantes também contribui para a chegada da dançarina a este mundo negro e intocado. Em determinado momento, o arrogante e incisivo diretor da companhia, interpretado pelo francês Vincent Cassel, deixa claro o maior obstáculo da protagonista: “A única pessoa que está no seu caminho é você mesma”. A mãe super protetora (Barbara Hershey) também a sufoca e surta ao ver que a redoma de vidro construída não foi suficiente para proteger a filha de seu verdadeiro eu. A colega e rival Lily (Mila Kunis) contrasta com Nina por exalar sensualidade e desejar seu papel – o que também a desestrutura.

A dicotomia entre bem e mal fica tangível nas cores dos cisnes, que desenham ainda uma nova Nina – que descobre que o inferno não é tão mefistofélico quanto imaginava. O estereótipo de cisne branco arraigado à educação e à frigidez da personagem, muito próximo ao aspecto da própria atriz, vai se dissolvendo no embate que é travado com seus próprios demônios.

A todo o momento são os dois lados da moeda que vão nortear as alucinações da bailarina. Os fantasmas são tantos e tão bem alinhados às tragédias vividas pela artista, que a verossimilhança construída em sua mente acaba tomando também o espectador.

A cada instante da trama fica claro que somente levando a personagem ao inferno é que se pode extrair dela o necessário. Black Swan explicita a boa forma de Aranofsky e de sua protagonista, deixando o recado de Drummond de que “Meu ódio é o melhor de mim”; passando ainda pela máxima nietzschiana na qual a “Tragédia é criadora da forma”.

9 de fevereiro de 2011

Estreia com exemplo de austeridade

O deputado federal José Antonio Reguffe (PDT-DF), que foi proporcionalmente o mais bem votado do país com 266.465 votos, com 18,95% dos votos válidos do DF, estreou na Câmara dos Deputados fazendo barulho. De uma tacada só, protocolou vários ofícios na Diretoria-Geral da Casa.

Abriu mão dos salários extras que os parlamentares recebem (14° e 15° salários), reduziu sua verba de gabinete e o número de assessores a que teria direito, de 25 para apenas 9. E tudo em caráter irrevogável, nem se ele quiser poderá voltar atrás. Além disso, reduziu em mais de 80% a cota interna do gabinete, o chamado “cotão”. Dos R$ 23.030 a que teria direito por mês, reduziu para apenas R$ 4.600.

Segundo os ofícios, abriu mão também de toda verba indenizatória, de toda cota de passagens aéreas e do auxílio-moradia, tudo também em caráter irrevogável. Sozinho, vai economizar aos cofres públicos mais de R$ 2,3 milhões nos quatro anos de mandato. Se os outros 512 deputados seguissem o seu exemplo, a economia aos cofres públicos seria superior a R$ 1,2 bilhão.

“A tese que defendo e que pratico é a de que um mandato parlamentar pode ser de qualidade custando bem menos para o contribuinte do que custa hoje. Esses gastos excessivos são um desrespeito ao contribuinte. Estou fazendo a minha parte e honrando o compromisso que assumi com meus eleitores”, afirmou Reguffe em discurso no plenário.

4 de outubro de 2010

Este não é um post pessimista

Que estranha quimera é o homem, ele é uma novidade, um caos,
um tema de contradições, um prodígio, é juiz de todas as coisas
e imbecil, verme da terra e depositário do verdadeiro, cloaca de
incertezas e erros, glória e vergonha do universo. Somos belos
e horrendos, inteligentes e imbecis, juizes e
réus, ordenados e caóticos.

PASCAL



Senso de incompletude. Liberdade embalada em plástico, reluzente e com gosto de isopor. A felicidade é sublime e, com comicidade, vendida como algo tangível. Os itens citados, que mais se aproximam de um apático quadro clínico, remetem à constipação do homem contemporâneo.

São esses espectros de imediatismo, de individualismo e de passividade que desenham o mal estar atual. A busca pela verdade norteia o comportamento coletivo: o diferente deve ser massacrado, esta é a ética ensinada ao indivíduo. A intolerância vai eliminar os pretensos inferiores, e aí você ganhará a verdade irrefutável que tanto deseja ter.

Tudo em nome da cura deste vazio, um buraco ontológico, que deveria servir como reavaliação do eu – e que, romanticamente, seria o motor gerador de inovações. Mas vivemos o consumo, deve-se suprir esse ressentimento humano. Por isso, material e afetivo ajudarão nessa busca. A cura está no excesso, nas imagens-fantasmas da felicidade. Coma demais, goze e evite o orgasmo; já que este está atrelado ao afeto. Descarte as pessoas, desrresponsabilize-se pela política: são essas as bandeiras para perda do jogo “aleteico”.

Você precisa suprir este vazio, regular essa imbecilidade, eliminar a incerteza criando uma verdade unilateral. Transcenda à dúvida e chegue a uma representação do real - assim você poderá ordenar o seu caos e ser juiz de todas as coisas. Esta é a promessa.

Quem vai te viabilizar este paraíso? Comece pelo trabalho. Ele parece uma cadeia, mas você sentirá alívio por ter um. É ele que engrandece o homem. É ele que te faz chegar ao quinto dia útil. Dê sua vida por ele, pois, só assim, você terá acesso à outra ferramenta antívazio: o consumo.

Acorde para vencer. Acumule, prospere, tenha anseio por comprar. Viva este sonho médio. Tenha uma mentalidade de plástico e uma imagem a zelar. Você vai se tornar a extensão do que você consome, pois a felicidade é esta obrigação de mercado: ser o seu relógio, o seu carro, seu celular.

Ser deprimido é démodé. Seja um andróide de si mesmo, pois você vive numa Disneylândia cercada de malabaristas no sinal de trânsito; mas que, por sorte, o Mickey Mouse não te deixa enxergar. A plenitude do happy end está garantida, como uma vida após a morte.



14 de maio de 2010

A América de mal humor

Frente à postura iraniana de não abrir suas fronteiras para análise do urânio que o país vem desenvolvendo — seja para fins armamentistas ou para produção de eletricidade —, os Estados Unidos têm se constipado, num mal estar que reverbera por todo o Ocidente. A especulação de que o Teerã esteja enriquecendo urânio com fins armamentistas é o argumento central de Washington para buscar aliados, inclusive em terras tupiniquins, intencionando que o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) crie sansões freando os interesses de Mahmoud Ahmadinehad, presidente iraniano.

O Brasil, que nos últimos anos estabeleceu relações positivas com o Irã, e que também desenvolve análises semelhante de enriquecimento de urânio — contudo a portas abertas para inspeção internacional, desde que seja mantido o sigilo tecnológico do processo —, defende o direito iraniano de desenvolver o programa, respeitando, contudo, o TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear). Neste cenário arisco, há ainda o estopim maior: a visita que o presidente Lula fará ao Irã, entre os dias 16 e 17 de maio, para tratar especificamente do caótico assunto, que pouco agrada os americanos.

Vale ressaltar a pontinha de inveja norte-americana no caso, já que a tecnologia empregada pelo Brasil e pelo Irã nos processos com o urânio é segredo de estado — e está longe de ser decifrado.

Tio Sam apontando o dedo

Em meio a este cenário, os EUA resolveram agir. Não foram poucas as tentativas de angariar adeptos à sua visão maléfica do Irã. É claro que a terra do Tio Sam não está sozinha nessa. Eles contam com o apoio de franceses, alemães e ingleses numa campanha internacional para impor as sanções à antiga Pérsia.

Contudo, a prata da casa é que mais advoga pela causa do governo do presidente Barack Obama. O democrata Eliot Engel, presidente do subcomitê de Hemisfério Ocidental no Congresso americano e copresidente do Brasil Caucus, grupo de parlamentares interessados nas relações bilaterais, chamou, no início deste mês, de “vergonhosa” a atitude brasileira de receber o presidente iraniano meses atrás, segundo o jornal O Estado de São Paulo.

A secretária de Estado norte-americana, Hilary Clinton, em visita ao Brasil em meados de março último, também jogou suas fichas. “Só depois que tivermos aprovado sanções no Conselho de Segurança o Irã irá negociar de boa fé”, disse em entrevista coletiva, segundo o portal O Globo. O principal assessor de Obama para a América Latina, Daniel Restrepo, também defendeu sua pátria. "Por meio de seu engajamento com o Brasil e outros países, os iranianos tentam ganhar tempo", disse, de acordo com O Estado.

A maior preocupação do governo de Washington e de seus compatriotas parece ser, de fato, que a hegemonia psicológica americana em relação a assuntos da ordem mundial — exercida há tantos anos — caia por terra. Isso por conta do diálogo que Lula vem estabelecendo com o resto do mundo, buscando minimizar a postura estadunidense. Rússia e China, que tem poder de veto das sanções no Conselho da ONU, já deixaram claro que não querem encostar o Irã na parede e, por isso, a campanha de Lula corre bem. Na última quinta, 13, inclusive, o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, apoiou a postura brasileira. “Os russos veem favoravelmente a ida do presidente Lula ao Irã e acompanham com interesse os esforços para abrir espaço para o diálogo”, afirmou segundo a Agência Brasil.

Lula messiânico

Lula deixou explicito que quer defender antes de mais nada o direito iraniano — e brasileiro — de enriquecer urânio. "Eu quero para o Irã o que eu quero para o Brasil", disse na última quarta-feira, 12. "Não tenho outro compromisso com o Irã a não ser o compromisso de tentar convencer o Irã de que a paz é melhor do que a guerra", esclareceu.

Em nome da paz ou não, é notório que o presidente tupiniquim ganhou os holofotes da imprensa mundial por conta de sua postura paternalista com o Irã. E isto já começa a reverberar agruras visíveis. Nesta sexta-feira, 14, o embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, disse ao jornal Financial Times que “à medida que o Brasil se torna mais afirmativo globalmente e começa a mostrar sua influência, vamos trombar com o país em novos temos — como o Irã, o Oriente Médio, o Haiti”, conforme informações da BBC Brasil.

Seja por postura estratégia ou não, está posição terá um preço. Resta saber o quão alto ele será, caso Lula e seu sorriso quase simplório consigam desenhar, de fato, uma nova ordem mundial.

12 de abril de 2010

Outros olhares da moda

A figura que vem a mente toda vez que a palavra Moda é pronunciada já sofreu vários tipos de deturpação. Além do que se imagina, hoje a fisionomia da Moda está nos cortes de cabelo, nos objetos, nos corpos, nas gírias, na forma de tentar (re)construir o mundo em que vivemos através da imagem. O simples fato de ver a ligação restrita da Moda com as vestimentas já é entendimento ultrapassado sobre o assunto.

Portanto, engana-se aquele que vê na graduação de Moda um desfile de dondocas se acotovelando com blush no rosto e cabelos espalhafatosos. A moda é, antes de mais nada, retrato da sociedade, uma forma de comunicar e expressar — que marca e representa parte da história de um povo em determinada época. À frente dos estereótipos, o estudante que pretende ingressar nesse campo deve ter em mente a necessidade de expansão de seu repertório cultural — já que o curso tem grande discussão de disciplinas humanas.

A faculdade de Moda fala também da criação, da pesquisa e do desenvolvimento de projetos e produtos para as áreas de confecção e têxtil. Dá base para a atuação profissional na vertente artística — voltada para estilistas que buscam criar peças — e produtiva — quando o artista atua no desenvolvimento de peças já desenhadas.

Longe do glamour dos desfiles há outras áreas de trabalho. O bacharel em Moda pode atuar com produtoras de vídeo, na criação de cenários e figurinos. Há possibilidade de ingressar no mercado de comunicação, escrevendo sobre o tema. Nas áreas de publicidade e propaganda, na indústria têxtil e no varejo de Moda também existe espaço. E claro, os tão almejados holofotes das passarelas também estão brilhando a espera de novos profissionais, com novas ideias e novos recortes do mundo.

A moda é livre, desinibida. Uma folha em branco onde tudo é possível, que pode difundir gostos, escolhas, questionamentos. Por isso, liberte-se, opine, dispa-se de preconceitos e não se diminua caso queira figurar ao lado das passarelas. Siga a máxima de Pierre Cardin: "Um mundo sem a moda seria cinza e triste, e milhões de pessoas não teriam do que viver”.

8 de abril de 2010

Questões Domésticas

Vivi por deliciosos anos numa casa simples, minúscula, mas aconchegante, cuja proprietária era, e ainda é, uma pessoa que eu intitulava “de Deus”. Meio piada interna o nome, mas é possível entender. Crente fervorosa, ela tinha lá seus chiliques religiosos. Externava, como se as palavras não coubessem à boca, todos os seus infortúnios e insucessos a Ele. E a mim cabia um só lugar: não acabar com a esperança religiosa, seja lá de quem fosse, nem questionar os caminhos à qual perpassaram essa esperança. Uma postura repressora frente à fé alheia nunca é justa. Assumo ser quase preconceito questionar a fé, achar-se melhor que alguém a ponto de delinear modelo de vida embasado em minha opinião quase religiosa. E assim evito, ainda hoje, suscitar assuntos permeados por fanatismo juntos aos fanáticos. A paixão impede de olhar a si — e isto vale pra mim. De qualquer jeito não importa, não é problema meu. Sempre questionei o quê aconteceria a uma pessoa se não atendesse a um chamado da noite, a um chamado de Deus. E creio que sejam poucos os seres humanos disposto a descobrir.

Fato é que dificilmente, à época, eu ouvia algo além do que realmente quisera ouvir daquela senhora. Hoje sei que ela me dava goles de paz. Ora ou outra havia um problema de ordem doméstica, daqueles em que se discute o quanto a companhia de energia elétrica aumenta as tarifas, ou sobre um curto circuito que leva junto a ele alguns poucos eletrodomésticos e afins. Mas não passava disso. Tivemos, sim, um vento de desconforto que perdurou alguns meses por discussões assim, e cheguei até a pensar que era melhor sair dali. Mas isto se foi, já é lenda. Passado um tempo ela precisou da casa e tive que sair. Sempre me saudava com um “só Deus para nos ajudar” e em minha saída não foi diferente. As coisas acabaram bem assim. Eu quase conseguia crer.

Fora ali, naquela casa, inclusive, que minha pseudo-vida adulta se enraizou. Ainda não sei se posso afirmar isso. Digo pseudo porque naquele momento, mesmo após ter escolhido estar só, minha família ainda era porto seguro. Oquei. Até o momento eles me saúdam com uma ajuda que beira o virginal. E a um e a outro agradeço: à família, pelo afeto, e à ajuda, pela ajuda.

Na casa dos vinte sai de casa por conta do amor. O anel que tu me deste era vidro e se quebrou e o amor, pela primeira vez em minha história, se acabou. Descobri que só amar não resolve. Aliás, amar por amar é fácil. Difícil é amar o quê é fácil mesmo. Amar o café da manhã, o Jornal Nacional no sofá, o mau humor, amar a falta de grana, o mês maior do que o dinheiro. Difícil também é entender que o amor não alimenta tudo, não salvaguarda certas coisas. É preciso ponderação, anulação e outros verbos que nos sublimam. E aí descobri que era hora de voltar.

À época, o cuspe áspero que a vida fez escorrer em minha cara me cobriu a face, e foi a sagrada mãe que me salvou. A minha mesmo, não a de Jesus como diria minha ex-vizinha. Me recebeu com a cama feita, às gargalhadas e com o mesmo semblante vivo que me disse “tchau” coisa de um ano e meio antes. Poucos dias antes de eu partir em nome do amor, no início dessa estória, quando eu levava minha mãe ao ponto de ônibus como sempre fora todas as manhãs, ela me disse também que não conseguiria imaginar fazer aquele mesmo caminho de tantos anos sem mim. E o fez. Ter esse medo era a amaldiçoada glória da escuridão materna, que as mães enfrentam aos risos, muito mais frenéticas e firmes do que nós.

Ali eu permaneci, até que o amor materno secasse as feridas e eu pudesse dar um passo ou outro sozinho. Não custou tanto. Fiquei nos braços de outro amor, mais vivo. A certeza e a paz que se podem sentir num momento assim é um vômito que nos livra de outro vômito maior: o vômito da alma. E esta eu não cuspi para fora. Graças à minha progenitora.

Agora as coisas não iam bem. Depois que me mudei da primeira casa de minha vida adulta, aquela da mulher “de Deus”, acabei caindo num perfeito buraco. Era uma casa tão pequena quanto a anterior, com seus cômodos assimétricos e um espaço externo desses que chamam por aí de quintal. Eu estava, como de costume, sem um puto no bolso e não poderia escolher muita coisa. Os sonhos eram os mesmos, há muito tempo, mas não havia mais tanto tempo pra sonhar.

Me mudei — e aqui digo foda-se ao pronome obliquo átomo —, trouxe a meia dúzia de pertences que tinha e ali fiquei, acostumando a viver a nova condição. O barulho era infernal, os vizinhos/companheiros de casa eram ratos, mecânicos e o calor era senegalês. Pra ajudar, pouco depois passei a figurar ao lado dos desempregados. Fiz uns biscates, trabalhos que eu na verdade pouco dominava, mas que saiam, e assim consegui levantar uns trocos para respirar por um tempo.

O quê acontece à vida quando fazemos o que queremos com ela? Nada acontece. Por isso eu bebia um ócio interminável — que em momento algum passava por aquela teoria do ócio criativo. Vivia o ritmo daquela casa com minha presença constante. Pouco sabia que ali um mundo secreto se abrira contra mim. O céu era negro mesmo sendo estampado por um branco pálido.

Durante o dia, seres jamais vistos tramavam meu desalento, num plano que mesclava terror e asco, e que até o momento não tinha sido levado a mim. A noite era deles. Certo dia cheguei à casa e notei um pó que não fora trazido pelo vento, chamuscado sobre a cama. Um buraco no teto denunciava sua origem. Não me importei. O calor era de janeiro, e as chuvas e os ventos estavam endemoninhados. Por isso julguei que houve ali uma simples tremedeira no teto, a ponto de causar a queda do pó. Por isso — o calor, a chuva e os ventos —, era comum também ver ratos e outros sobreviventes “à chacina e à lei do cão” passear pelas ruas. Mas não em meu quase lar.

Era coisa de cinco da manhã e os litros d´água que eu ingerira antes do sono me pediam para sair. Na negridão do quarto um cheiro, que felizmente não se pode descrever aqui, se fazia presente. Com salto olímpico fui arrancado da cama até a luz. E então vi, de forma tangível, o inferno. A morada dos tenazes roedores, ao teto, havia cuspido larvas e todo tipo de dejetos que pouco cabem às palavras. Um pandemônio. A incerteza de ação me fez titubear por alguns segundos até crer que aquela era minha vida. Eu preferiria não entender, ser um estrangeiro de mim mesmo. Mas tive que agir, entre a loucura e a lucidez, eu estava vivo. Descobri que minha vida poderia acabar numa faxina em plena madrugada, afirmando o jargão de que “é do inferno que se vê o céu” e saudando a saudade da casa “de Deus”.